
Professores e professoras apaixonados acordam cedo
e dormem tarde, movidos pela ideia fixa que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar:
estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas,
debilitam as inteligências.
no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar,
que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados,
um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de
romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro!
o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais
longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço
de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via
do contraste, o absurdo que é viver sem paixão,
ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado,
sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos
os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário
os próximos feriados.
dos desrespeitos, das injustiças, até mesmo dos horrores
que há na profissão.
Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto
é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se
dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga
como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações
antigas e novas substituam a lúcida esperança.
não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido,
com voz melosa ou ríspida.
Mera oração subordinada, e nada mais.
Querem multiplicar o tempo, somar os esforços,
dividir os problemas para solucioná-los.
Querem analisar a química da realidade.
Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que
entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei.
Mas é também indisfarçável.
Esse texto é de autoria de Gabriel Perissé (Mestre em Literatura
Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação
e doutorando em Pedagogia pela USP).

















